quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

As perversidades que vagam abertamente no mundo se infiltram sutilmente nas mentes que perambulam desocupadas, na maioria dos casos, são sorrateiras e não pedem permissão para entrar. É do inconsciente que vem todo caos que assola os desavisados com surtos e crises, complicações às quais foram dados nomes clínicos como “compulsivo obsessivo, maníaco depressivo, esquizofrênico, transtorno borderline, etc.” Todos são invasores caóticos do cotidiano mundano que flui por aí.

Kenny era um cara legal. Tinha uma esposa legal, um carro bom. Bom demais para a classe média. Não tinha filhos para se preocupar, tinha um ótimo trabalho. Total segurança e estabilidade. Uma rotina de vida meio monótona, mas o sexo com a sua esposa Olívia não estava nem perto de atingir a decadência do casamento institucional. Ele tinha tudo, inclusive a tranqüilidade de uma mente passiva. Eis seu pecado.
Kenny mantinha erguida a carapaça da satisfação total de um homem bem sucedido de classe médio-alta. Mas no profundo das suas entranhas ele digeria devagar as suas próprias motivações existenciais. Kenny só conseguia dar uma cagada a cada cinco dias, ele passava a semana inteira constipado sorrindo para os vizinhos e se passando por um marido carinhoso e compreensivo. Ele estava prestes a explodir.
Um dia Kenny chegou mais cedo do trabalho em seu Ford Corcel, estacionou o carro na entrada da garagem, desceu, e se dirigiu para a porta dos fundos. A porta de tela estava um pouco emperrada, ele deu um puxão e ela se abriu. Ele entrou na cozinha sentou-se na bancada, tirou sapatos e as meias e subiu as escadas descalço. A porta do quarto estava semi-aberta. Ele empurrou a porta e avistou sua esposa deitada na cama lendo uma daquelas revistas de dona de casa. Ela usava uma camisola fina, e um dos seus peitos aparecia, dava inclusive para ver que ela parecia não estar usando calcinha. Kenny se sentiu incrivelmente orgulhoso e excitado. Olívia então percebeu ele na porta.
– Oi, querido. Você chegou cedo hoje. – ela então percebeu as calças de Kenny e deu uma risadinha. – Tem alguma coisa no seu bolso, querido?
Ele andou até a cama e sentou na beirada colocando a mão sobre a perna dela. Ele tirou a gravata e a jogou no chão, tirou os óculos e os colocou no chão. Ela fechou a revista e a jogou na cadeira do outro lado do quarto.
– Querido, você está bem? Está um pouco estranho.
– Querida, – ele disse – vamos trepar.
Ela riu sacudindo a cama e expondo mais aqueles peitos maravilhosos demais para uma dona de casa.
– Querido, você realmente não está bem. O que aconteceu? Você quer conversar? Vamos, você pode falar comigo.
Kenny desabotoou o primeiro botão da camisa e arrancou o segundo e o terceiro com força, então ele tirou a camisa por cima e se lançou em cima de Olívia, se colocando entre as pernas dela e segurando seus braços contra a cabeceira da cama. Ela não teve muito tempo para reagir fisicamente.
– Kenny, que caralho você está fazendo?
– Eu disse que queria trepar, querida.
– Kenny, que porra. Me solte.
Ela começou a se contorcer, mas não adiantou muito. Ele tentou beijá-la mas ela virou o rosto, ele então começou a lamber os peitos dela e a se esfregar entre as pernas dela, mexendo os quadris. De fato ela estava sem calcinha. Ela fez caretas e se contorceu o máximo que pode tentando se libertar até que então soltou um pequeno gemido suspirado e carregado do que parecia dor. Kenny então parou de se mexer e se ergueu, ainda em cima dela. Ele olhou para a ela e ela continuava a se contorcer e fazer caretas, ele soltou uma das mãos dela, que estava um pouco vermelha, e ela o acertou no rosto começou a puxar o cabelo dele. Ele desceu sua própria mão livre e a colocou entre ele e ela. Mexeu um pouco os dedos, ela afrouxou o puxão. Ele retirou a mão a aproximou do rosto e esfregou os dedos. Ela suspirou tentou tirar ele de cima e então dolorosamente falou:
– Kenny, pare com isso. – a respiração dela estava ofegante e ela não abria os olhos direito.
– Você está gostando. – ele disse, abrindo um sorriso cheio de malícia – Você está gostando! – ele deu uma risada e voltou a fazer os movimentos colocando a boca no pescoço dela.
Ela tentou puxar o cabelo dele, arranhar suas costas, bater em suas costas, puxar sua orelha, mas ela não tinha força o suficiente e não pode conter o segundo gemido mais alto e mais suspirado.
– Kenny, pare.
– Você está gostando.
– É, mas você está me machucando.
Ele a ignorou e continuou, usando sua mão livre para apertar os peitos dela e subir mais a camisola. Ela agora só arranhava as costas dele, então ela mordeu a orelha dele. Ele se assustou e parou por um segundo, mas a mordida não era ameaçadora e ela não fazia menção de que iria arrancar um pedaço fora. Ele continuou se movendo.
– Tudo bem, Kenny. Tire logo a calça.
Ele se ergueu e deu um tapa com força na cara dela.
– Não me dia o que fazer, sua vagabunda!
Ela soltou um pequeno grito e seus cabelos bagunçados tamparam seu rosto. Kenny rolou na cama segurando ela e a manteve em cima dele. Ela não tentou se livrar, apenas escorregou as mãos para baixo e começou a desabotoar o cinto dele.
– Isso mesmo – ele disse –, seja boazinha.
Os dois foram muito violentos durante todo o ato. Kenny gozou e a jogou de cima dele para fora da cama. Ela caiu no chão e então começou a chorar. Enquanto ela soluçava ele se levantou e se dirigiu ao banheiro, se limpou com a toalha e começou a apreciar as marcas de mordidas e arranhados que marcavam seu peitoral, pescoço e costas. Enquanto isso ela soluçava no quarto, ainda no chão.
Kenny saiu do banheiro e começou a se vestir. Ela levantou a cabeça e perguntou:
– Aonde você vai?
– Embora.
– O que? Você chega aqui, me estupra e diz que vai embora.
– É.
– Você ficou louco Kenny? Que porra há de errado com você?
– Cale a boca.
– Vá se foder, seu louco! – ela se levantou e se atirou em cima dele da maneira mais frenética e escandalosa que uma mulher consegue.
Ela teve tempo apenas para golpeá-lo um pouco. Ele agarrou a cabeça pela nuca e a bateu na parede duas vezes. A puxou para trás e olhou o rosto dela com a testa ensangüentada. Ela parecia desmaiar. Ele repetiu umas vezes o movimento e a soltou. Ela caiu pesadamente.
Ele terminou de se vestir, tirou as chaves do seu Ford do bolso e as jogou pela janela. Desceu as escadas rumo a cozinha, pegou seus sapatos e saiu pela porta da frente.

Em teoria os distúrbios são apenas distúrbios, mas na prática, eu gosto de compará-los a demônios. Como disse antes, eles vagam por aí e ocasionalmente quando se encontram com alguém fraco o suficiente tomam conta dele e extraem a capacidade de prática de moralismos falsos e de raciocínio de bom senso. A situação se parece com uma possessão ou encarnação. Pode até ser que seja a revelação do verdadeiro cunho e essência de alguém reprimido pela mediocridade da existência indesejada e inevitável.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

“Não demora muito pra perceber quando você se queima.”

Não demora muito pra perceber quando você tenta apagar um cigarro com a mão ou se você se corta, desde que escorra uma linha vermelha de sangue, vai ser suficiente pra você perceber bem rápido. Não demora nada. A dor é imediata e irradia, assumindo uma forma mais ampla no corpo. Obviamente existe o fator psicológico – que pessoalmente eu acredito ser apenas visual – que só serve pra aumentar a sensação. É um processo bem simples, um arco reflexo do corpo.
Contudo, demora pra perceber, que as marcas nos seus ombros não vão sair depois do banho, demora pra perceber que essa mancha no seu cotovelo, que fica no exato lugar em que você se apóia na mesa, parece muito um calo. Demora bastante pra perceber que a marca nas suas costas tem o formato muito semelhante ao da cadeira, e demora ainda mais pra perceber que quando você veste as suas calças e se olha no espelho, achando que perdeu alguns quilos, é apenas seu próprio corpo se deformando e definhando.
Alguns dias atrás espiei a casa dos vizinhos pelo muro. Vi o filho deles mais novo sentado na beirada da piscina segurando o alicate que ele havia seqüestrado da caixa de ferramentas do seu pai. Ele cruzou as pernas e se encurvou para olhar mais de perto os pés. Então, com o alicate, ele começou a arrancar cada uma das unhas dos pés. Senti um pouco de nojo. Ele arrancava com calma a unha, se endireitava para olhá-la contra o sol – sangue escorria nos dedos – então ele a colocava de volta no lugar. Ocasionalmente dava pra perceber que ele fazia uma careta de dor. Depois de repetir a cena dez vezes, ele tirou uma rolo de fita adesiva do bolso, enrolou os dedos vermelhos, calçou cuidadosamente os chinelos e correu para dentro para guardar o alicate do pai.
Outro dia fiquei olhando pela janela da frente a calçada, esperando com o saco de lixo na mão. Quando o menino saiu para levar o lixo eu saí também. Dei passos largos e rápidos. Depois de depositar o saco na lixeira me virei para o garoto e disse:
– Ei, garoto. Boa noite.
Ele então se virou para mim e com um sorriso de criança respondeu:
– Boa noite. – e começou a se virar para ir embora. Eu o impedi falando mais:
– E seus pais, como estão?
Ele se virou com a cabeça baixa:
– Estão bem, obrigado. E tentou se virar de novo. Eu então perguntei:
– Ei, garoto. Por que você faz aquilo com os pés?
Ele ficou parado sem falar nada, sem saber o que fazer. Então eu disse:
– Está tudo bem. Não vou contar pra ninguém. Só quero saber o por quê.
Ele me surpreendeu com a seguinte resposta:
– É que às vezes eu fico entediado. – se virou correndo e entrou na casa.
Fiquei alguns dias sem espiar pelo muro. Algo que uma criança de dez anos disse fez efeito além do que devia. No mês seguinte a Winchester 44 do meu avô já estava fora do armário, e a borda da piscina dos vizinhos tinha umas pequenas manchas vermelhas.
Um dia eu dormia no sofá quando um bando de sirenes me acordou e aquelas luzes vermelhas arderam meus olhos. Vesti-me e fui lá fora me juntar com o resto dos curiosos da vizinhança. A mulher da casa a frente havia literalmente castrado o marido com uma faca de cozinha. Ela mesma chamou a emergência. Muitos gritos vinham de dentro da casa. Era o marido em desespero. Enquanto os policiais tentavam acalmar o homem na casa eu notei que a mulher estava dentro de uma viatura da polícia com a janela aberta. Escorei no carro e comecei a conversa:
– Ei, dona. Tudo bem com você?
– Tudo bem.
– Por quê você fez isso?
Ela não respondeu.
– Ele te batia?
– Não.
– Tinha uma amante?
– Não. Pelo menos nunca soube.
– Então, por quê?
– Me cansei dele. De tudo aquilo. Pensei que ele então não merecia ser homem, e cortei fora o que fazia dele um homem.
– Você simplesmente se cansou?
– É.
Pensei por uns instantes e conclui que ela tinha ficado entediada do mesmo jeito que o filho dos vizinhos ficava.
– Tudo bem. Eu entendo.
– Quer saber como foi?
A mulher esperou que o marido dormisse e começasse a roncar. Ela se levantou sem fazer nenhum barulho e foi até a cozinha. Tomou um copo d’água e pegou na gaveta a faca mais afiada, aquela que ela usava para cortar as carnes. Então ela subiu de novo até o quarto, se sentou na beirada ao lado do marido e colocou a mão dentro da cueca dele. Ele acordou pensando que iria se divertir. Ela começou a excita-lo e tirou a cueca dele. A luz estava apagada e ele nem estava olhando quando ela segurou com força e levou a faca em direção. Foi com um só movimento. Ele gritou e a chutou e ela bateu de costas na cômoda. Ele correu para o banheiro e se trancou lá. Ela desceu as escadas ligou para a emergência e foi esperar do lado de fora da casa, sentada na calçada.
O marido foi retirado da casa amarrado na maca. Ele esperneava e gritava, e havia uma mancha horrível e escura no lençol que tampava o meio de suas pernas.
A mulher se chamava Beatriz. Era uma vizinha muito gentil. Eles moraram ali por uns dez anos. Dez anos para ela se cansar. Foi muito tempo.
Na manhã seguinte sai para tomar um café em alguma dessas lanchonetes. Peguei um jornal e li a notícia que já sabia. Li o obituário. Treze pessoas morreram na noite em que minha vizinha ficou entediada. Paguei pelo café e voltei para casa.
Quando cheguei, aquela relíquia que meu avô tinha deixado pra mim antes de morrer estava em cima da mesa. A Winchester 44, com seus quatorze tiros carregados no seu interior.
O filho dos vizinhos um dia fora levado por um carro branco e por homens com jalecos brancos. Depois disso as manchas na borda da piscina sumiram. Ouvi dizer que a mulher chamada Beatriz havia sido transferida do presídio para uma clínica. Não foi uma notícia muito boa de ouvir. Quando chegou de manhã eu peguei uma cadeira da cozinha e coloquei no meio da sala, virada na direção da janela, onde dava pra ver a calçada e a rua. Peguei a relíquia de meu avô e sentei olhando pela janela. O carteiro então apareceu para entregar a correspondência. Mirei com muita calma e puxei o gatilho com força. O barulho foi muito alto. O vidro se quebrou em apenas um pontinho. O carteiro jogou as cartas no ar e tombou no canteiro de rosas. Foi ótimo aquilo. Todo aquele papel voando. Me senti como uma criança que mata um passarinho com uma arma de chumbinho.
Algumas horas se passaram. Eu continuei sentado lá. As sirenes apareceram de novo. Eu mirei no meio da porta da frente e atirei. Então sujei o teto de vermelho.
Eu senti aquele cheiro. Você sentiu?
Aposto que você também já consegue sentir o cheiro de queimado.

domingo, 17 de agosto de 2008

Andando naquele beco escuro e seco tudo o que eu ouvia eram meus próprios passos e o estalar dos saltos das prostitutas que andavam de um lado para o outro esperando o próximo que iria convidá-las para um rápido negócio. Fazia muito frio. Parei em uma sombra e escorei-me em uma porta de metal gelada; observava a mulher do outro lado da rua.

As luzes das ruas eram como ilhas, iluminando algumas partes e deixando outras perigosamente escuras. A prostituta era familiar, o que era muito irritante. Eu havia me vestido bem para aquela situação, meu melhor paletó e um novo par de meias pretas, sapatos limpos e um chapéu muito confortável. Saí da sombra e caminhei sem fazer barulho até me aproximar suficiente para que ela pudesse me ver.

O som de carros distantes e de um alarme que havia disparado há pouco tempo completavam o cenário. Dei mais um passo e a reconheci. Tirei o chapéu pára que ela pudesse ver meu sorriso e as rugas nos cantos dos meus olhos. Ela agradeceu com um sorriso. Dei mais um passo e coloquei o chapéu nela. Ela agradeceu tirando o cabelo do rosto, arrumando-o dentro do chapéu, e fingindo tentar ajeitar o vestido rasgado.Não havia tensão de nenhum tipo. Apesar da situação, nada aconteceria. Seria imoral. Até que um novo par de saltos se aproximou pela minha esquerda.

Senti-me bem vendo que aquele par vinha em minha direção. Uma tensão foi criada. Ela passou a mão na minha nuca e enterrou o punho no meu estômago. O choque foi extremamente prazeroso. A pior joelhada que já levei me colocou no chão. Ela montou e continuou no mesmo ritmo inconstante. Foi delicioso.

terça-feira, 22 de julho de 2008

O caminho carnal que eu segui naquela noite foi o maior erro dentre os vários colecionados na minha lista gorda, ainda assim, o prazer de consumar aquele ato glorioso da maneira mais suja possível, foi simplesmente incomparável. Aquela sensação horrenda se vestiu de tentação, e eu cai ,propositalmente, de cabeça. Foi delicioso.

É um sentimento comum, todo mundo conhece, só não conhece explicitamente. Ele é melhor cru. É aquela sensação intensa seguida do mais incrível alívio. Ela faz parte do cotidiano, só que ganha esse charme quando é anunciada. Anuncie-a para si mesmo e sinta-a correr o chão em volta de você. Medíocre.

sábado, 19 de julho de 2008

Sua beleza desconcertante tornava o ar do recinto cada vez mais pesado, sua carapaça impenetrável era pontiaguda e arranhava a calma dos ali presentes, sem dar declarações ela se levantou e, sem esforço algum, abriu caminho pela multidão raivosa. Ninguém a tocou, ninguém se quer mexeu. Ela era intocável, invulnerável. Tomou as chaves da minha mão e arrancou deixando pra trás somente o cheiro de borracha queimada dos pneus. Ela se fora.

A mudança veio me soterrar como um caminhão descarregando a carga de toneladas de rochas.

“Na manhã seguinte um corpo pálido e gelado permanecia estirado na beira da estrada, bem no limite do campo de visão da porta do meu quarto. Eu sabia quem era, o que era, e principalmente o que acontecera. Havia premeditado tudo aquilo.”

Primordialmente o desespero tomou conta da cena, meus músculos enrijeceram, suor ameaçou escorrer pela minha testa e tomou conta das minhas mãos, um tremor patético fez com que eu derrubasse minha xícara de café. Escorei na porta sentindo o ar fugir dos meus pulmões. Retomei bruscamente o fôlego e o desespero sumiu. Entrei no quarto para me trocar.

Além do silêncio que normalmente me acompanhava um outro silêncio se manifestou dentro da minha cabeça. Quietude maravilhosa. Meus pensamentos nunca foram tão serenos quanto naquele momento. Tirei meu paletó preto de dentro da mala nunca desfeita e comecei a me despir. O telefone tocou sete vezes antes que eu o atendesse para ver que não havia ninguém do outro lado na linha.

Ajeitado dentro do paletó antigo comecei a dar o nó na gravata. Um nó clássico duplo. Peguei meu chapéu Derby posicionado em cima do criado-mudo. Fechei a mala. Atirei o cinzeiro de mármore no espelho do banheiro e a cadeira pela janela. Peguei as chaves do carro e sai depressa olhando para os meus sapatos.

Dei a partida no meu velho Dodge e arranquei. Estava indo para um lugar onde os dias não fossem tão cinzentos.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

“Muito longe de onde eu pertencia ficava aquele maldito buraco imundo habitado por aqueles nojentos cidadãos que eu infelizmente chamava de vizinhos.”

Muitas vezes eu me perdia em pensamentos como esse, questionando o motivo que me prendia a toda aquela realidade que eu detestava, na maioria delas nem sequer encontrava resposta, o que também me mantinha preso, esperando até que a razão se revelasse na minha frente. Ela demorava mas nunca faltava.

O que mais me irritava era aquele clima seco infernal que fazia meus olhos arderem e as noites frias que inquietavam os meus sentidos. Era desgastante ficar olhando todo aquele cenário repetitivo, sujo e embaçado. Mas eu era obrigado a permanecer sob aquelas circunstâncias porque era ali que a minha fonte de sanidade ficava. Ela perambulava sem destino e as vezes me surpreendia com visitas inesperadas.

Parece muito pouco, e de fato era, chegava a ser medíocre, mas não havia nenhum motivo melhor que me forçasse a abandonar aquele estado de miséria.

Mais tarde algo aconteceu, quebrando meu ciclo de vícios.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Incessante o vento fria lhe castigava a face, mas se sentia estranhamente bem. Os olhos ardiam, mas sequer piscava, simplesmente para não interromper o deleite daquele momento, tinha honestidade para com si mesmo e abraçava o desejo por um instante como aquele. A vida se resumia ali. Todos os fascínios momentâneos que um dia alteraram seu curso ganhavam estampas de falsidade, tudo aquilo que um dia almejara, posto no balança, transformado em um fútil intocável. O nível não era mais o mesmo. O tempo se contorcia e lhe enrugava o rosto. Tudo se resumia ali. Naquele único momento real.

domingo, 15 de junho de 2008

Por diversas vezes vagamos pelo mar das águas passadas admirando nostalgicamente as carcaças dos peixes grandes que fisgamos e devoramos. Admiramos os incríveis feitos que pensamos ter vivido ou ,pelo contrário, afundamos no arrependimento e na insatisfação com a efemeridade da vida.

O produto da síntese enfadonha que se torna a vida poderia ser depositado em uma tigela de proporções mínimas, demonstrando a insignificância do resultado final da soma de todos os flagelos de vivência colocados em balanço com os fatores chulos que removem a carga da tigela. Para isso deve-se considerar que para cada ato digno deixado pode haver – como sempre há – uma ação caluniosa que o anulará.

Por fim a única conclusão – fora da estrutura clichê – plausível a se tirar desse devaneio é perceber o grau de inutilidade do próprio.

domingo, 1 de junho de 2008

Acordando forçado pelo fedor pútrido que vinha do cômodo ao lado Jack se levantou e foi direto ao banheiro, pôs para fora o que não convinha, ligou o chuveiro e entrou de baixo usando apenas seu par de meias pretas. Não se lavou bem. Saiu e se enxugou com a toalha que estava no chão e foi olhar o outro cômodo.

Parou com a mão na maçaneta e antes de abrir a porta pensou – sempre a mesma merda. – girou, abriu, lá estava ela, aquela mulher gorda sentada em um vaso sanitário sorrindo. Disse bom dia e voltou para se vestir. Se arrumou bem – camisa branca, paletó escuro, sapatos limpos, pés determinados. Já era hora de sair, ele não se despediu.

Andando do lado de fora parou para comprar o jornal. O vendedor o cumprimentou.

– Bom dia – e voltou a assistir a minúscula tv que segurava.

– Bom dia – e continuou – Sabe se há algo que para ler nesse jornal?

O homem não respondeu, apenas sorriu e voltou ao seu transe. Jack olhou rapidamente as palavras na folha e dobrou jornal colocando-o debaixo de seu braço e continuou andando. A cidade vibrava com a agitação do meio dia e dois cachorros brigavam por um pedaço de osso. Sentiu-se enojado em ficar na rua e entrou na primeira lanchonete a sua esquerda.

Uma bela garçonete ruiva com um pouco demais de maquiagem o ofereceu café e ele aceitou. Tomou a xícara devagar com o jornal posicionado ao lado no balcão, dando a impressão de que ele realmente lia e se interessava nas notícias. A ruiva voltou para servir mais café e derrubou a xícara no colo de Jack. Ele reparou marcas nas mãos delas e no canto da boca, além da carga que ela expôs com as rugas na testa. Ela pediu desculpas, limpou o balcão e saiu. Ele foi ao banheiro se limpar. Entrou no banheiro limpo, xingou a mulher gorda sentada no vaso, lavou as mãos e foi embora da lanchonete.

Na calçada o sol o castigava enquanto voltava pro seu apartamento. Chegou, abriu a porta e a trancou por dentro, caminhou e depositou o jornal no lixo, disse que havia chegado avisando a mulher gorda. Tirou a roupa, a não ser pelas meias pretas, e se deitou.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Nos meus delírios cotidianos, que não passam de perversidades fúteis e insensatas, eu alimento meus fascínios que degeneram minha consciência de um velho safado. Propositalmente me afundo em fantasias medíocres por horas, e saio delas atrofiado mas feliz, como um drogado que acaba de suprir seu vício. Elas me fazem mal, contudo, não suporto sem elas.
Ocasionalmente, quando lúcido, me retiro às leviandades. Me engano dizendo que assim saio do costume diário. Mas não me falta prudência. Quando junto à matilha também visto pele de cordeiro. Não me importo em poupa-los dos meus devaneios tóxicos. Prudente ou não, meu cheiro já recende no ar, por que eu sei que por aqui dispensam-se censuras.