terça-feira, 23 de setembro de 2008

“Não demora muito pra perceber quando você se queima.”

Não demora muito pra perceber quando você tenta apagar um cigarro com a mão ou se você se corta, desde que escorra uma linha vermelha de sangue, vai ser suficiente pra você perceber bem rápido. Não demora nada. A dor é imediata e irradia, assumindo uma forma mais ampla no corpo. Obviamente existe o fator psicológico – que pessoalmente eu acredito ser apenas visual – que só serve pra aumentar a sensação. É um processo bem simples, um arco reflexo do corpo.
Contudo, demora pra perceber, que as marcas nos seus ombros não vão sair depois do banho, demora pra perceber que essa mancha no seu cotovelo, que fica no exato lugar em que você se apóia na mesa, parece muito um calo. Demora bastante pra perceber que a marca nas suas costas tem o formato muito semelhante ao da cadeira, e demora ainda mais pra perceber que quando você veste as suas calças e se olha no espelho, achando que perdeu alguns quilos, é apenas seu próprio corpo se deformando e definhando.
Alguns dias atrás espiei a casa dos vizinhos pelo muro. Vi o filho deles mais novo sentado na beirada da piscina segurando o alicate que ele havia seqüestrado da caixa de ferramentas do seu pai. Ele cruzou as pernas e se encurvou para olhar mais de perto os pés. Então, com o alicate, ele começou a arrancar cada uma das unhas dos pés. Senti um pouco de nojo. Ele arrancava com calma a unha, se endireitava para olhá-la contra o sol – sangue escorria nos dedos – então ele a colocava de volta no lugar. Ocasionalmente dava pra perceber que ele fazia uma careta de dor. Depois de repetir a cena dez vezes, ele tirou uma rolo de fita adesiva do bolso, enrolou os dedos vermelhos, calçou cuidadosamente os chinelos e correu para dentro para guardar o alicate do pai.
Outro dia fiquei olhando pela janela da frente a calçada, esperando com o saco de lixo na mão. Quando o menino saiu para levar o lixo eu saí também. Dei passos largos e rápidos. Depois de depositar o saco na lixeira me virei para o garoto e disse:
– Ei, garoto. Boa noite.
Ele então se virou para mim e com um sorriso de criança respondeu:
– Boa noite. – e começou a se virar para ir embora. Eu o impedi falando mais:
– E seus pais, como estão?
Ele se virou com a cabeça baixa:
– Estão bem, obrigado. E tentou se virar de novo. Eu então perguntei:
– Ei, garoto. Por que você faz aquilo com os pés?
Ele ficou parado sem falar nada, sem saber o que fazer. Então eu disse:
– Está tudo bem. Não vou contar pra ninguém. Só quero saber o por quê.
Ele me surpreendeu com a seguinte resposta:
– É que às vezes eu fico entediado. – se virou correndo e entrou na casa.
Fiquei alguns dias sem espiar pelo muro. Algo que uma criança de dez anos disse fez efeito além do que devia. No mês seguinte a Winchester 44 do meu avô já estava fora do armário, e a borda da piscina dos vizinhos tinha umas pequenas manchas vermelhas.
Um dia eu dormia no sofá quando um bando de sirenes me acordou e aquelas luzes vermelhas arderam meus olhos. Vesti-me e fui lá fora me juntar com o resto dos curiosos da vizinhança. A mulher da casa a frente havia literalmente castrado o marido com uma faca de cozinha. Ela mesma chamou a emergência. Muitos gritos vinham de dentro da casa. Era o marido em desespero. Enquanto os policiais tentavam acalmar o homem na casa eu notei que a mulher estava dentro de uma viatura da polícia com a janela aberta. Escorei no carro e comecei a conversa:
– Ei, dona. Tudo bem com você?
– Tudo bem.
– Por quê você fez isso?
Ela não respondeu.
– Ele te batia?
– Não.
– Tinha uma amante?
– Não. Pelo menos nunca soube.
– Então, por quê?
– Me cansei dele. De tudo aquilo. Pensei que ele então não merecia ser homem, e cortei fora o que fazia dele um homem.
– Você simplesmente se cansou?
– É.
Pensei por uns instantes e conclui que ela tinha ficado entediada do mesmo jeito que o filho dos vizinhos ficava.
– Tudo bem. Eu entendo.
– Quer saber como foi?
A mulher esperou que o marido dormisse e começasse a roncar. Ela se levantou sem fazer nenhum barulho e foi até a cozinha. Tomou um copo d’água e pegou na gaveta a faca mais afiada, aquela que ela usava para cortar as carnes. Então ela subiu de novo até o quarto, se sentou na beirada ao lado do marido e colocou a mão dentro da cueca dele. Ele acordou pensando que iria se divertir. Ela começou a excita-lo e tirou a cueca dele. A luz estava apagada e ele nem estava olhando quando ela segurou com força e levou a faca em direção. Foi com um só movimento. Ele gritou e a chutou e ela bateu de costas na cômoda. Ele correu para o banheiro e se trancou lá. Ela desceu as escadas ligou para a emergência e foi esperar do lado de fora da casa, sentada na calçada.
O marido foi retirado da casa amarrado na maca. Ele esperneava e gritava, e havia uma mancha horrível e escura no lençol que tampava o meio de suas pernas.
A mulher se chamava Beatriz. Era uma vizinha muito gentil. Eles moraram ali por uns dez anos. Dez anos para ela se cansar. Foi muito tempo.
Na manhã seguinte sai para tomar um café em alguma dessas lanchonetes. Peguei um jornal e li a notícia que já sabia. Li o obituário. Treze pessoas morreram na noite em que minha vizinha ficou entediada. Paguei pelo café e voltei para casa.
Quando cheguei, aquela relíquia que meu avô tinha deixado pra mim antes de morrer estava em cima da mesa. A Winchester 44, com seus quatorze tiros carregados no seu interior.
O filho dos vizinhos um dia fora levado por um carro branco e por homens com jalecos brancos. Depois disso as manchas na borda da piscina sumiram. Ouvi dizer que a mulher chamada Beatriz havia sido transferida do presídio para uma clínica. Não foi uma notícia muito boa de ouvir. Quando chegou de manhã eu peguei uma cadeira da cozinha e coloquei no meio da sala, virada na direção da janela, onde dava pra ver a calçada e a rua. Peguei a relíquia de meu avô e sentei olhando pela janela. O carteiro então apareceu para entregar a correspondência. Mirei com muita calma e puxei o gatilho com força. O barulho foi muito alto. O vidro se quebrou em apenas um pontinho. O carteiro jogou as cartas no ar e tombou no canteiro de rosas. Foi ótimo aquilo. Todo aquele papel voando. Me senti como uma criança que mata um passarinho com uma arma de chumbinho.
Algumas horas se passaram. Eu continuei sentado lá. As sirenes apareceram de novo. Eu mirei no meio da porta da frente e atirei. Então sujei o teto de vermelho.
Eu senti aquele cheiro. Você sentiu?
Aposto que você também já consegue sentir o cheiro de queimado.