Um cara entra numa loja de bebidas de uma cidade pequena, segue até o fundo caminhando olhando para o chão, pega uma garrafa de gin e segue para o caixa. Confere na cintura o belíssimo mecanismo formado pelo ferrolho, chassi, cano e um carregador. É um aparelho pesado e gelado que é mais pesado ainda do ponto de vista humanista. Quando chega ao caixa levanta a cabeça e se depara com um garoto nojento, suado, com uma barba não merecedora de pronúncia. O cara fica estático.
É bem simples dizer que o tempo que se foi, não volta mais e que o que já aconteceu não pode ser mudado. O tempo é uma linha motora sendo traçada em uma única direção, sendo assim, é óbvio dizer que o que nos resta é apenas contemplar com os olhos o que já foi manchado com tinta, é palpável dizer que quem conseguiu teve êxito, quem trepou, gozou, quem molhou, se secou e que quem morreu, permaneceu. É muito fácil dizer que um garoto morto em um assalto de supermercado simplesmente vai continuar morto e que uma mãe, presa nas ferragens de um acidente ao lado de seus filhos pálidos, vai sobreviver. É fácil e simples dizer que o tempo é cego, surdo, mas não mudo, por quê ele vive correndo por aí gritando pra todo mundo perseguir ele e deixando exemplos de que quem ficar só pode ter ficado e de fato ficou.
O cara já conhece o garoto. O nome dele é Gabriel, filho dos donos da loja. Gabriel tem 16 anos, tem uma bandinha com uns amigos, tira notas medianas na escola, quer ir pra faculdade de engenharia, quer se casar com uma mulher loira e gostosa, quer conhecer o Himalaia, quer aprender a surfar, quer comer o travesti que sempre aparece de noite a dois quarteirões dali, quer comprar um carro novo pro seu pai, quer salvar o menino mendigo que vive por ali, quer dizer pra menina do seu colégio que ele gosta dela e que também sonha em comer ela, etc e etc. Gabriel tem sonhos demais, talvez inúteis pra você, mas ainda assim, sonhos e aspirações pra ele.
O cara coloca a garrafa no balcão, o garoto olha para baixo para abrir o caixa, o cara enfia a mão na cintura e aponta para a testa do garoto, o garoto deixa a garrafa errar a sacola e trincar no balcão, o cara engatilha e diz:
- Eu também morri na sua idade.
A caixa registradora ganha um acabamento novo em vermelho e a câmera no canto do teto ganha uma história nova e emocionante pra contar.
O cara senta no balcão, tira o celular, liga pra polícia, diz o que acabou de fazer e desliga. Coloca dez mangos na gaveta do caixa aberta pela garrafa de gin, encara quem ainda corre pra fora da loja de bebidas, abre a garrafa e bebe goladas até a polícia chegar.
A polícia entra gritando cheia de pintos nas mãos. O cara, meio suado e vermelho, joga a máquina e a garrafa no chão. A polícia agarra o homem pela gola da camisa e pelo braço, o joga no chão, o corta com cacos de vidro, torce seus punhos, o levanta por algemas e o joga no porta-malas do carro pintado.
Enquanto o cara afundava no silêncio do porta-malas, a polícia tirava fotos, escrevia em papéis, enumerava histórias, escutava prantos - todo mundo escutava os grunhidos da mãe que rolou por horas na calçada e teve que ser arrastada pelo pai pra mais longe - a polícia também escutava os sussurros dos moradores do bairro que sabiam quem era o cara e planejavam um fim para ele.
Se eu te contar que um homem foi atropelado e morreu à dois quarteirões da sua casa, como você vai se sentir? E se eu te contar que uma garotinha de 4 anos de idade foi atropelada e morreu à dois quarteirões da sua casa, como você vai se sentir? Qual a diferença?
A polícia entra no carro, dá a partida e dirige para a delegacia. O cara respira fundo e começa:
- O polícia, sabe por quê eu dei um tiro na cabeça do menino?
A polícia fica quieta:
- Por quê eu quis. Por quê é normal. Sabe por quê é normal?
O barulho do chuvisco nos vidros do carro e do limpador de para-brisa ligado responderam. Então o cara continuou:
- Você sabe por quê é normal, seu imundinho? Olha só pra você, morto. Eu morri e o garoto morreu. Você também morreu já tem tempo - limpa a garganta com força e cospe no painel do carro.
A polícia vira para si e diz:
- Esse cara vai pegar um asilo e não a caixa.
- Eu sei. E aí, quer fazer o que?
- Nada. Não é problema meu.
O cara ri e continua:
- O polícia, quer dizer, senhor morto, cê não quer conversar comigo?
O barulho da sirene desligada responde e o cara segue:
- Semana passada eu acertei na testa de uma garotinha. Ela tinha cinco anos, os pais dela eram médicos e até hoje não sabem onde ela foi parar. Eu sei onde ela foi parar. Ela está do lado da fábrica de tecidos com um buraco na cabeça. Você sabe por que eu resolvi matar ela e o garoto do mercado? Por quê eles tinham que ser tão jovens? Será que tem alguma razão? Na realidade, é um pouco egoísta, mas tem uma boa justificativa. Claro que eu não vou dizer tudo, mas pense assim: Quando você tinha 16 anos, quem você queria ser? Pra onde queria ir? Eu queria ser biólogo, pesquisar e defender espécies marinhas ameaçadas. Me pergunte se eu sou biólogo. Não vai perguntar? Mas, respondendo mesmo assim, não, eu não sou biólogo. Esse meu eu morreu já tem tempo.
Pense em um funil. Bem grande. Um funil gigante. Que na embocadura maior comporta centenas de pessoas e na embocadura menor cerca de duas ou três pessoas. Agora imagine centenas de pessoas penduradas por cordas acima da embocadura maior do funil. Imagine. Imagine tudo como se fosse real, apesar do funil. Imagine a gravidade puxando as pessoas pra baixo e as cordas deixando marcas nos calcanhares das pessoas amarradas. Agora imagine todas essas pessoas sendo soltas simultaneamente e caindo no funil. Pense. Imagine as pessoas gritando desesperadas. As pessoas escorregando pelas paredes do funil ficando menor, se chocando, sendo esmagadas umas contra as outras, perdendo membros esmagados entre outros membros, escorregando lubrificadas por sangue e essa coisa caótica toda. Pense. Não é provável que alguém saísse ileso desse escorregar inevitável. Imagine. Imagine você do lado desse funil. Imagine que o funil sou eu. Me imagine. Agora o funil vira pra você e diz:
- Oi, meu nome é Tempo e eu te garanto que se apenas duas ou três pessoas tivessem caído por mim elas teriam chegado no fim ilesas e vivas. Mas ninguém chegou.
O carro pintado andava bem devagar e a água que batia nos vidros e lataria gritava alto. O cara insistiu:
- Houveram outros. Sabe que eu anotei tudo? Tá tudo aqui dentro da minha carteira. Os lugares, os nomes, as fotos de antes e depois, as manchetes de jornal recortadas e dobradas. Tudo. Você quer ver? Não? - limpou com força a garganta e cuspiu pra frente de novo acertando o câmbio - Mortos. Todos mortos.
A polícia virou pra si mesma e disse:
- Vira na próxima a direita.
- Vai dar no rio.
- Eu sei.
O carro seguiu de luzes baixas bem devagar até chegar do lado do rio. Saiu da estrada e entrou na lama até chegar no barulho de água batendo em água. A polícia desceu do carro segurando máquinas ao invés de pintos. Contornou o carro e abriu o porta-malas com violência. Se surpreendeu com o cara sério, sentado de frente pra porta segurando a carteira com as duas mãos algemadas. A polícia pegou a carteira pra confirmar o que não era duvidoso e disse:
- É, cara, cê vai ter que ir nadar.
O cara respondeu:
- Tá muito frio pra nadar, polícia.
A polícia dialogou:
- Cê vai tar tão gelado quanto a água, moço.
E remendou:
- É, cara, cê vai morrer. Pode chorar se cê quiser.
O homem respondeu arregalando os olhos e tentando se escorregar pra fora do porta-malas:
- Eu não posso morrer, polícia. Eu já estou morto. Você é quem vai renascer.
As máquinas da polícia brilharam frenéticas piscando gloriosas. O cara realmente foi nadar no frio. Entrou de roupa e tudo, tinha até umas pedras amarradas pra não boiar.
Já consegue responder o que eu perguntei mais cedo? Por quê parece que é mais dolorido pro seu consciente coletivo a morte de uma criança? Digo que é uma questão matemática de possibilidades e o fenômeno físico da energia potencial contida na existência do ser jovem. Sim, isso mesmo. Machuca mais seu consciente coletivo por quê você entende perfeitamente tudo que morre com aquele ser. Você se lembra de todas as vezes que aconteceu com você e se lembra de quantos de você já morreram. Sim, eu quis dizer quantos de "você". Todo mundo conhece um sonho morto.
O carro pintado dirigiu direto pra delegacia enquanto a polícia discutia e planeja discursos no seu interior. O expediente no escritório foi grande e cheio de explicações. No fim da tarde a polícia ia pra casa em forma de pai. O pai tinha um filho que não ia bem na escola, mas só tirava notas boas na aula de artes. A polícia foi às compras. Comprou canetas, lápis, diversos tipos de papéis, cadernos de rascunho, giz, carvão, pincéis, telas, tintas e foi pra casa.
Na porta de casa, o pai parou pra pegar a chave no bolso tentando não colocar as sacolas no chão. Espirou todo o ar dos seus pulmões. Abriu a porta, inspirou rápido e gritou o filho. Fechou a porta.