terça-feira, 17 de junho de 2008

Incessante o vento fria lhe castigava a face, mas se sentia estranhamente bem. Os olhos ardiam, mas sequer piscava, simplesmente para não interromper o deleite daquele momento, tinha honestidade para com si mesmo e abraçava o desejo por um instante como aquele. A vida se resumia ali. Todos os fascínios momentâneos que um dia alteraram seu curso ganhavam estampas de falsidade, tudo aquilo que um dia almejara, posto no balança, transformado em um fútil intocável. O nível não era mais o mesmo. O tempo se contorcia e lhe enrugava o rosto. Tudo se resumia ali. Naquele único momento real.

domingo, 15 de junho de 2008

Por diversas vezes vagamos pelo mar das águas passadas admirando nostalgicamente as carcaças dos peixes grandes que fisgamos e devoramos. Admiramos os incríveis feitos que pensamos ter vivido ou ,pelo contrário, afundamos no arrependimento e na insatisfação com a efemeridade da vida.

O produto da síntese enfadonha que se torna a vida poderia ser depositado em uma tigela de proporções mínimas, demonstrando a insignificância do resultado final da soma de todos os flagelos de vivência colocados em balanço com os fatores chulos que removem a carga da tigela. Para isso deve-se considerar que para cada ato digno deixado pode haver – como sempre há – uma ação caluniosa que o anulará.

Por fim a única conclusão – fora da estrutura clichê – plausível a se tirar desse devaneio é perceber o grau de inutilidade do próprio.

domingo, 1 de junho de 2008

Acordando forçado pelo fedor pútrido que vinha do cômodo ao lado Jack se levantou e foi direto ao banheiro, pôs para fora o que não convinha, ligou o chuveiro e entrou de baixo usando apenas seu par de meias pretas. Não se lavou bem. Saiu e se enxugou com a toalha que estava no chão e foi olhar o outro cômodo.

Parou com a mão na maçaneta e antes de abrir a porta pensou – sempre a mesma merda. – girou, abriu, lá estava ela, aquela mulher gorda sentada em um vaso sanitário sorrindo. Disse bom dia e voltou para se vestir. Se arrumou bem – camisa branca, paletó escuro, sapatos limpos, pés determinados. Já era hora de sair, ele não se despediu.

Andando do lado de fora parou para comprar o jornal. O vendedor o cumprimentou.

– Bom dia – e voltou a assistir a minúscula tv que segurava.

– Bom dia – e continuou – Sabe se há algo que para ler nesse jornal?

O homem não respondeu, apenas sorriu e voltou ao seu transe. Jack olhou rapidamente as palavras na folha e dobrou jornal colocando-o debaixo de seu braço e continuou andando. A cidade vibrava com a agitação do meio dia e dois cachorros brigavam por um pedaço de osso. Sentiu-se enojado em ficar na rua e entrou na primeira lanchonete a sua esquerda.

Uma bela garçonete ruiva com um pouco demais de maquiagem o ofereceu café e ele aceitou. Tomou a xícara devagar com o jornal posicionado ao lado no balcão, dando a impressão de que ele realmente lia e se interessava nas notícias. A ruiva voltou para servir mais café e derrubou a xícara no colo de Jack. Ele reparou marcas nas mãos delas e no canto da boca, além da carga que ela expôs com as rugas na testa. Ela pediu desculpas, limpou o balcão e saiu. Ele foi ao banheiro se limpar. Entrou no banheiro limpo, xingou a mulher gorda sentada no vaso, lavou as mãos e foi embora da lanchonete.

Na calçada o sol o castigava enquanto voltava pro seu apartamento. Chegou, abriu a porta e a trancou por dentro, caminhou e depositou o jornal no lixo, disse que havia chegado avisando a mulher gorda. Tirou a roupa, a não ser pelas meias pretas, e se deitou.